O Desafio de Ler e Escrever

A ausência de significado para os usos da leitura e da escrita é indissociável de um problema tão grave como o da iliteracia que afecta largas camadas da população portuguesa.

Numerosos alunos, mesmo provindo de meios letrados, apresentam resistência à leitura e à escrita, em anos avançados da escolaridade. Dificuldades acentuadas de decifração impedem por exemplo, no 2º ciclo, a leitura fluente de narrativas, conteúdo obrigatório neste nível de ensino.

Estando hoje bem identificada a correlação entre as taxas de insucesso e abandono escolar e as dificuldades dos alunos no domínio da comunicação escrita, importa actuar precoce e intencionalmente sobre este factor determinante do sucesso.

O facto de a Escola ignorar ainda, em larga medida, a função social da escrita arrasta pesadas consequências, sobretudo para as crianças mais distantes da cultura letrada que, por esse mesmo motivo, têm dificuldades em compreender o seu papel e dominar as suas técnicas.

Por exemplo, os textos produzidos pelos alunos raramente têm outro destinatário que não seja o professor que os corrige e devolve. Esta não é a função essencial nem natural da escrita, razão pela qual muitos alunos lhe não reconhecem utilidade e a ela se furtam. O mesmo poderíamos dizer da leitura, presa ainda tantas vezes ao árido exercício escolar.

Também o alheamento de pais e outros adultos próximos, relativamente ao acto de ler e às funções da escrita, se repercute no comportamento das crianças, neste domínio.

Pais insuficientemente esclarecidos quanto ao papel educativo que podem desempenhar, dificilmente garantem aos filhos um relacionamento forte e precoce com a leitura, considerado hoje um factor ainda mais importante para a interiorização do hábito de ler que o seu próprio nível de instrução.

Dados recolhidos entre nós (Martins,1993) provam que quanto mais forte é o envolvimento dos pais relativamente à aprendizagem da escrita, melhores são os resultados das crianças na fase de transição da literacia emergente para a escrita convencional.
No caso das crianças privadas, em casa, do convívio com adultos leitores cabe à Escola oferecer-lhes a possibilidade de escolha e de exploração de livros que as interessem.

Renovar a significação dos actos de leitura e de escrita ao longo do percurso escolar revela-se, portanto, desafio urgente.

Como referência para a experimentação de percursos que permitam concretizar essa finalidade:

  • sublinha-se a necessidade da intencionalização das práticas de leitura e de escrita, como condição para o seu carácter significativo, desde o contacto pré-escolar;
  • propõe-se a criação de ambientes favoráveis e de situações estimulantes da prática da leitura e da escrita, nos três elos da cadeia educativa (pré-escolar, 1º e 2º ciclos);
  • aposta-se em fazer da leitura e da escrita actividades interactivas, sentidas e partilhadas com os outros, reconhecendo-se a importância da emoção no desenvolvimento cognitivo da criança.

Através do projecto Literatura & Literacia, com a sua vertente Teia – Cidadania, Intercâmbios e Literacia cada professor estará não só a trabalhar o coração do currículo como, ao mesmo tempo, a acelerar o processo de desenvolvimento pessoal e social dos seus alunos.

Ao dar a cada criança a oportunidade de uma aprendizagem significativa, o Professor está também a criar laços entre ela e a Escola e a permitir-lhe que compreenda o papel da Educação (formal/institucional) no acesso a todos os outros Direitos do Homem.

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Referências Teóricas

Como referência para a experimentação de percursos que permitam concretizar as finalidade do projecto sublinha-se:

  • Recurso aos usos lúdicos e funcionais da língua escrita como forma de acelerar o processo de apropriação do seu sentido por crianças e adultos analfabetos, de acordo com a investigação levada a cabo sobre a psicogénese da leitura e da escrita (FERREIRO e TEBEROSKY, 1986);
  • Mediação do adulto no desenvolvimento de estratégias de leitura pela criança (CHAUVEAU e ROGOVAS, 1981), nomeadamente no apoio à confirmação das hipóteses de sentido que as crianças levantam, em face de cada palavra que vêem escrita (MARTINS, 1996);
  • Contacto precoce com o texto literário que, pela sua natureza, « toca o outro e o emociona« , na definição de Eduardo LOURENÇO, e particularmente com « o maravilhoso dos contos tradicionais [que] se tiver um bom e afectuoso narrador, tem tudo o que é preciso para estimular o sonho, a fantasia, a sabedoria e o saber da criança e do homem. » (SANTOS,1984).

Esta proposta pretende, pois, conferir um papel de relevo à literatura de tradição oral (poesia e narrativa) na aprendizagem da leitura e da escrita, no pressuposto de que a literatura, inclui e confere significatividade aos procedimentos inerentes à literacia enquanto processo de resolução de problemas da vida quotidiana, através da escrita (Cf. definição de literacia como: « as capacidades de processamento da informação escrita na vida quotidiana » citada por Benavente (1996) in A Literacia em Portugal.

Segundo João dos Santos, o maravilhoso dos contos infantis proporciona às crianças não só o exercício da sua actividade simbólica como o desenvolvimento da sua inteligência.

Do mesmo passo, pretende-se assim reforçar o lugar da literatura para crianças, no 1º ciclo, tal como prevêem os Programas de Língua Portuguesa http://www.deb.min-edu.pt/1ciclo.

A estas referências juntaram-se, os estudos de James Christie e Roskos (1994-97), os trabalhos de Morrow (1990), Clay (1993) e Pessanha (1994) cruzados com as teorias sobre a natureza do jogo.

O Projecto assenta nos estudo feitos entre nós sobre a correlação entre níveis de literacia e sucesso escolar (Salgado,1996).

Finalmente, à literatura sobre pedagogia da documentação, vai buscar informação sobre formas de treinar a compreensão de sistemas de classificação de livros em bibliotecas públicas de modo a tornar atraente e fácil a requisição de obras, desde muito cedo. A bibliografia on-line permitirá alargar esta informação.

Para além da função da literatura no desenvolvimento linguístico global, na educação estética e no equilíbrio emocional das crianças, esta opção visa especificamente acelerar, nas crianças mais novas, o processo de decifração da escrita.

Parte-se do pressuposto de que um texto bem conhecido oralmente e eleito afectivamente favorece a adequação das hipóteses que a criança levanta quanto ao sentido das palavras escritas que o compõem. O número de coincidências entre palavras ditas e palavras escritas clarificará o pensamento das crianças quanto às relações entre as duas modalidades da comunicação (oral e escrita).

Estrutura Organizativa do Projecto

O Projecto Literatura & Literacia está aberto à participação de qualquer educador de infância ou professor do Ensino Básico podendo, em algumas das suas dimensões, interessar outras pessoas: bibliotecários, animadores culturais, autarcas, direcções de colectividades de cultura e recreio, centros de terceira idade…

Através dos Jardins de Infância e das Escolas ou directamente, são convidados a envolver-se nas tarefas propostas os pais e avós de crianças e adolescentes.

Nas freguesias de Ajuda, Santa Maria de Belém e S. Francisco Xavier encontra-se o núcleo inicial do Projecto. Daqui irradiou para outros locais, sobretudo através de um outro denominadoTeia, Cidadania, Intercâmbios e Literacia igualmente apoiado pelo Ministério da Educação / Instituto de Inovação Educacional, através do Sistema de Incentivos à Qualidade da Educação.

Não é, de certo, por acaso que o Projecto se encontra implantado em Agrupamentos Horizontais ou Verticais de Escolas, formal ou informalmente constituídos.

Com efeito, a disseminação das ideias e o seu desenvolvimento têm sido facilitadas pelas dinâmicas já existentes entre escolas. Nestes grupos alargados tem surgido sempre alguém que adere às propostas e as experimenta. A progressão do projecto depende, exactamente, da existência de educadores e professores que querem operacionalizar o plano de acção proposto pelo Projecto e passam a assumir a coordenação local, animando debates, apresentando resultados, recolhendo dados…

A coordenação central comunica com cada jardim de infância e cada escola através de Folhas de Ligação e de contactos pessoais. A cada coordenador local pede-se que organize, num dossier, todos os documentos difundidos na rede de modo a permitir a compreensão e o arranque do processo, em qualquer momento do ano.

A experiência tem mostrado que vão mais longe e mais depressa as instituições que escolheram um coordenador preocupado em manter-se ao corrente do processo.

Plano d’acção

O plano de acção visa proporcionar às crianças envolvidas a experiência das etapas de descoberta e pesquisa do que é a comunicação escrita, vividas com naturalidade pelas crianças que provêm de famílias onde existem hábitos de leitura. Após a fase de iniciação, visa melhorar a competência leitora dos alunos.

Os Educadores, Professores e Animadores que pretendem integrar a equipa assumem a responsabilidade de:

Animação de Leitura

1. Organizar, na sala de aula ou de actividades, um espaço atraente destinado à exposição e leitura de livros da literatura para crianças (canto- biblioteca);

2. Prever tempo para que as criança possam, tranquilamente, manipular os livros enquanto objectos – retirar da estante ou do baú, folhear, observar ilustrações…

3. Contar e ler histórias às crianças; dizer e ler poemas…Convidar familiares das crianças e /ou contadores de histórias para desempenharem a mesma tarefa; fazê-las aproveitar das animações de leitura em bibliotecas locais;

4. Organizar o empréstimo domiciliário, anotando ou encarregando alguém de anotar o movimento das obras;

5. Permitir à criança a escolha da(s) obra(s) que pretende ler na sala ou levar para casa, de entre um leque variado e de qualidade no que respeita ao texto e ilustração;

6. Encorajar a criança a exprimir e partilhar pensamentos, sentimentos e opiniões acerca dos textos lidos;

7. Proporcionar à criança tempo e materiais de expressão que lhe permitam traduzir os textos lidos noutras linguagens: plástica; dramática e musical;

8. Envolver, no acompanhamento da leitura domiciliária, os irmãos mais velhos e os adultos próximos da criança: pais, encarregados de educação, avós, tios, vizinhos…

9. Organizar actividades de treino do desenvolvimento da competência de leitura fortemente marcadas pelo carácter lúdico e expressivo e pelas finalidades sociais;

10. Promover a participação das crianças em animações e espectáculos organizados quer por adultos quer por crianças dos níveis de escolaridade mais avançados;

Criação de Infra-Estruturas

As equipas educativas são convidadas também a desenvolver infra-estruturas que sirvam o alargamento do projecto de promoção da literacia, numa perspectiva de rentabilização de recursos em cada território educativo e para além dele:

  • articular as Bibliotecas de Sala/ de Escola e os Centros de Recursos com as bibliotecas públicas (fixas e itinerantes) de forma a alargar a oferta de títulos;
  • estender às escolas vizinhas os serviços criados e materiais produzidos, no âmbito do projecto;
  • desenvolver o processo de agrupamento de escolas de forma a que as unidades documentais existentes ou a criar, na respectiva área de influência, no âmbito do projecto possam integrar-se na Rede Nacional de Bibliotecas Escolares;
  • integrar equipas de promoção de leitura em Centros de Dia, Bibliotecas de Saúde (Centros de Saúde e Hospitais), Bibliotecas de Rua, Associações de Cultura e Recreio (Novas Direcções para o Projecto);
  • contribuir para o funcionamento de um Observatório de Literatura para Crianças através da recolha e tratamento dos dados sobre o comportamento leitor de cada criança;
  • contribuir para o estudo do impacto dos textos sobre as crianças e, eventualmente, colaborar na construção de um cânone de autores/obras da literatura infanto-juvenil para o pré-escolar e para o 1º ciclo a propor ao Departamento de Educação Básica, à semelhança dos núcleos de textualidade canónica aprovados para o 2º e 3º ciclos do Ensino Básico;
  • colaborar na elaboração de listas de obras aconselháveis para o pré-escolar e o 1º ciclo que possam constituir constelações de textos capazes de dialogar, nos domínios das artes plásticas, da ciência, da técnica e tecnologia, com as obras do cânone a estabelecer.

Vertente Teia

Ao uso muito generalizado, nas escolas, de uma escrita sem destinatário, o projecto TEIA pretende contrapor um « outro » que desencadeie a necessidade de comunicar. Assim, o projecto faz intervir, entre sujeitos e destinatários, a distância como factor da necessidade de escrita e o envolvimento afectivo como motor da expressão pessoal.

Parte-se do pressuposto de que a introdução do factor espaço, na Escola, é fundamental para o entendimento, pelas crianças / alunos, da função primordial da escrita.

Oferecendo-se às crianças e adolescentes que frequentam as instituições envolvidas a possibilidade de trocarem os seus escritos, de variada natureza, com crianças e adolescentes geograficamente distantes, contribui-se para reforçar os laços afectivos com o acto de escrever, o que permite a compreensão do papel fundador da escrita e facilita a interiorização das respectivas estratégias.

Assim, as crianças e adolescentes envolvidos no projecto trocam entre si textos de natureza muito variada, resultantes do seu trabalho de criação, pesquisa e reflexão nas diversas áreas ou disciplinas curriculares.
Trocam ainda trabalhos plásticos, colecções e fotografias, folhetos, postais ilustrados e outros documentos que permitam o conhecimento tão completo quanto possível dos contextos de vida mútuos.
Circulam também lembranças que possam testemunhar afecto. Todos os documentos não verbais são acompanhados de textos referenciais. Sempre que possível, a correspondência é secundada por visitas entre os grupos.

O trabalho segue, em resumo, o mesmo ciclo: produção de texto, aperfeiçoamento, envio aos correspondentes, reacção afectiva aos textos recebidos. Cada par de grupos decide da regularidade das trocas. Estabelece-se entre os participantes uma TEIA de relações, alimentada sobretudo por envios através de via postal e por fax.

Para além da função da escrita para vencer o espaço, procura-se em simultâneo que as crianças a usem nas suas múltiplas funções, nomeadamente para o seu equilíbrio emocional e para o desenvolvimento intelectual e estético.

Espera-se, com o Projecto Teia, que as crianças oriundas de meios pouco ou nulamente letrados – imersas em culturas eminentemente orais e extremamente sensíveis à ausência de significatividade das práticas pedagógicas – reencontrem o sentido da escrita e se disponham a fazer o aturado treino suposto pelo domínio das técnicas requeridas.

Assim, poderão decidir-se a empreender os esforços requeridos pela complexidade da tarefa de estruturação de um texto e pela arbitrariedade das normas de ortografia. Além disso, será muito mais leve a carga de policiamento inerente ao acto de escrever, a qual inibe a expressão.

O projecto Teia foi apoiado pelo Instituto de Inovação Educacional, através do Concurso « Inovar, Educando / Educar, Inovando ». Actualmente considera-se uma vertente do Projecto Literatura & Literacia, no qual teve origem.

……..

CORRESPONDÊNCIA ESCOLAR                                
Se deseja iniciar uma correspondência:

1. Preencha esta ficha escrevendo apenas o primeiro nome de cada aluno e uma inicial do apelido, se houver nomes iguais.

2. Remeta-a por correio tradicional, fax ou correio electrónico para uma ou mais turmas que procurem correspondentes.
As características dominantes têm obrigatoriamente de ser positivas (Ex. Gosta de ler, escreve com grande correcção ortográfica; prefere desenhar, pintar, fazer construções, jogar à bola, conversar, dançar…)

3. Enquanto espera por uma resposta, comece a preparar as apresentações feitas por cada aluno com o apoio de desenhos, pinturas, colagens, fotografias…
Se quiser sugestões para organizar a correspondência interescolar, basta enviar um e-mail ao Secretariado.